Introdução dos alimentos nas refeições do Bebé

A diversificação alimentar deve ser efectuada quando o leite materno ou o leite para lactentes já não conseguem satisfazer as necessidades calóricas, de proteínas, de micronutrientes e de algumas vitaminas lipossolúveis. Também deve acompanhar a evolução dos aparelhos gastrointestinal e renal da criança, necessitando estes de ganhar maturidade para todo o processo digestivo, juntamente com o desenvolvimento neuromuscular onde, pelos 4 meses, haverá passagem do padrão primitivo da sucção para o da mastigação e deglutição.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses de vida, sendo que a partir desta altura se faz a introdução da diversificação alimentar. Claro que, por vezes, não é possível o aleitamento materno e há necessidade de se recorrer a um leite para lactentes, sendo que nestes casos a introdução dos alimentos pode ser iniciada quando o bebé completar os 4 meses (início do quinto mês).

Antes de especificar o timing da diversificação alimentar refiro que não há regras rígidas e fixas, nem verdades absolutas, há recomendações baseadas em questões maturativas (como referidas inicialmente) e em questões culturais. O bebé vai sendo treinado ao longa da introdução dos alimentos quer na aceitação de alimentos progressivamente mais sólidos, quer a paladares e texturas diferentes da do leite, por essa razão devemos fornecer um leque alargado de alimentos diferentes para tornar a alimentação da futura criança o mais variada possível. A introdução deve ser sempre espaçada, com intervalo de uma semana entre refeições (entre sopa, papa, fruta ou carne) e 2 a 3 dias quando estamos a falar da introdução das diferentes frutas ou hortícolas. Estes espaçamentos são importantes para ver se existe alguma reação do bebé e agir logo de imediato. Pode até anotar num caderno como está a fazer a introdução, para assim facilitar a identificação de alguma questão de intolerância, desconforto ou alergia.
O esquema mais comum de introdução é sopa de legumes, papa, fruta, carne, peixe, iogurte e gema de ovo mas pode haver ali uma troca nos dois primeiros, passando a papa para primeiro.

A primeira sopa de legumes deve ser simples, apenas com três legumes (como batata, cenoura e curgete) mas depois recomenda-se que o número deva aumentar para grupos de 4 ou 5. Batata, cenoura, abóbora, cebola, alho, alho-francês, alface, curgete, brócolos e couve-branca são por norma os mais utilizados inicialmente. O azeite adiciona-se depois de a sopa estar totalmente cozida e triturada, cerca de 5 a 7,5 ml. Espinafres, nabiças, beterraba e aipo só devem ser introduzidos após os 12 meses de idade pelo elevado teor em fitatos.

As papas podem ser introduzidas antes da sopa de legumes ou depois, sendo estas de dois tipos: lácteas (reconstituídas com água) ou não lácteas (reconstituídas com leite materno ou leite do lactente). As papas isentas de glúten (milho, arroz ou frutos) são indicadas até aos 6 meses, entre os 6 e os 7 meses a papa pode começar a conter glúten (trigo, centeio, cevada e aveia).

A fruta é introduzida aos 6 meses mas nunca deve constituir uma só refeição, é sempre um complemento. Maçã, pera (cruas, cozidas ou assadas com casca e caroço ou em vapor) ou banana são por tradição as primeiras a introduzir. Os citrinos, como a laranja podem ser introduzidos pelos 10-11 meses. Morango, framboesa, amora, kiwi e maracujá são as frutas que devem ser deixadas para introduzir após os 12 meses por serem potencialmente alergogénicos ou libertadores de histamina. Frutas tropicais como manga, abacate, papaia ou manga podem ser introduzidas entre os 6 – 7 meses pois não existem evidências de maior alergenicidade.
Nunca se deve dar fruta sob a forma de sumo devido à sua elevada osmolaridade, acidez, efeito laxante, anorexiante e cariogénico. Assim sendo, frutos sempre inteiros, nunca misturados e introduzidos um de cada vez para treinar o paladar.

Recomenda-se a introdução da carne aos 6 meses de idade, por começar a haver um esgotamento das reservas em ferro do bebé a partir do 4º ao 6º mês. Começa-se pelo frango, peru e coelho, em porções de 10g/dia adicionadas na sopa de legumes. A quantidade depois irá aumentar gradualmente até atingir os 25-30g/dia.

A partir do 6º mês começa-se a introduzir o peixe, em quantidade semelhante à da carne, começando pelos mais magros como pescada, linguado, solha ou faneca. Os peixes gordos como salmão ou cavala, apesar de serem fonte de ómega 3 devem ser introduzidos mais tardiamente, pelos 10 meses. Aconselha-se que as refeições de carne sejam 4 por semana e as de peixe 3 por semana.

A partir do 7º mês pode-se começar a adicionar a carne e o peixe a preparados como farinha de pau ou açorda, e a partir dos 8 – 9 meses, a arroz branco ou massa. A textura começa a ser progressivamente menos homogénea para assim estimular o desenvolvimento da báscula mandibular, precursor da mastigação e também necessária para o desenvolvimento da fala.

Ao 9º mês recomenda-se a introdução da gema do ovo, de forma também progressiva e lenta. Começar com ½ gema por refeição, por semana durante 2 a 3 semanas, seguida de uma gema, por refeição, por semana durante mais 2 a 3 semanas. Não se deve exceder 1 gema de cada vez e as 2 a 3 gemas por semana, não nos esquecendo que se houver carne/peixe não há gema! A clara só é introduzida a partir dos 11 meses ou 24 meses caso haja história individual de atopia.

Quanto ao iogurte recomenda-se que este seja introduzido pelos 9 meses, sempre natural, sem aromas nem quaisquer aditivos de açúcar (adocicados) ou de natas (cremoso). Apesar do iogurte natural ter sabor ácido não se deve adicionar açúcar, nem mel, este último pode conter uma bactéria responsável pelo botulismo, sendo por isso o adicionar fruta a melhor opção. O leite de vaca (pasteurizado e UHT) apenas é introduzido após os 12 meses, de preferência aos 24-36 meses.

As leguminosas secas mais especificamente, feijão, ervilha, fava, lentilha e grão podem ser introduzidas cerca dos 9 – 11 meses sempre previamente demolhadas e inicialmente sem casca e em pequenas porções. No caso de bebés a seguir uma dieta vegetariana a introdução pode ser antecipada.

Por último não posso deixar de referir a água, que apesar de na fase do aleitamento exclusivo estar a ser fornecida pelo leite, após o início da introdução dos alimentos esta deve ser oferecida no intervalo das refeições, várias vezes ao dia.

Não tenha pressa na introdução dos alimentos, deixe que esta seja faseada para ser mais fácil a identificação de intolerâncias e alergias, e também para a habituação do bebé ás novas texturas e sabores. Mesmo que haja rejeição de um alimento na primeira tentativa tenha sempre presente que a aceitação de novos sabores necessita de insistência e por vezes de muitas tentativas! Dê ao seu bebé um leque alargado de alimentos e sabores, crie hábitos alimentares saudáveis desde sempre, para assim perdurarem na idade adulta.

Ana Rita Lebreiro

Nutricionista

mim - Clínica do Desenvolvimento